segunda-feira, 11 de julho de 2011

DAR UM PASSO MAIOR DO QUE A PERNA

A propósito da vinda dos senhores do Capital que vêm  "ajudar" Portugal, tenho (temos) ouvido com bastante frequência dizer que o nosso Povo (a que pertenço) vive acima das suas possibilidades. Segundo uma frase bastante expressiva, esquece-se de que “não se deve dar um passo maior do que a perna".

Reavaliando prudentemente a minha vida, melhor: o meu modo de viver, não me parece que deva censurar-me por exageros desses. Não me meto em altas cavalarias; tento chegar ao fim do mês sem ter gastado a minha pensãozinha toda; se sonho com viajatas no país ou para o estrangeiro, por aí me quedo, não dou corpo aos sonhos; não sou menino de luxar, de gostar de roupas de marca e no último grito da tirânica Moda, de que não sou, de modo nenhum nem seguidor nem escravo; bem gostaria de ter uma segunda residência, no campo ou – de preferência – em localidade à beira-mar, mas as patacas chegam para sustentar uma casa e não sobram para voos mais altos; carros de marca nunca foram a minha paixão nem abissal obsessão, não me tiram o sono nem me causam pesadelos; os meus entretenimentos e passatempos são baratinhos, nem golfes nem ténis; não tenho amigos nem amigas no jet-set nem noutro número qualquer, mais elevado ou mais rasteireco, pelo que não tenho sequer tentações de alinhar em festas ou festins sardanapalescos, que custam os olhos da cara; a segunda classe nos comboios ou a classe turística se tenho de me deslocar de avião servem-me perfeitamente, como dispenso muito bem os requintes dos hotéis de cinco estrelas. Nem me sinto bem nesses ambientes.

Não, não me vejo a esticar a perna para dar um passo maior do que ela mede.

A famigerada – mas bem presente e já bem mais do que ameaçadora – CRISE não se deve a mim, não sou réu desse crime – embora deva confessar que por vezes sou levado a comprar certas inutilidades só porque… são baratas. Vou ver se me curo desse pecado.

E olho à minha volta, analiso o que sei da vida dos meus Amigos e… não os vejo a cometerem o negro pecado do esbanjamento. Não sei de que se endividem para satisfazerem gostos requintados; para se meterem em viagens e viajatas; para comprarem carrões que dão duzentos e cinquenta ou trezentos à hora; para comprarem segunda ou terceira residência, iates ou outros barcos de recreio. Não me consta que alinhem em espampanâncias de gosto duvidoso.

Não, também aos meus mais chegados Amigos não os vejo na tal perigosa e dispendiosa ginástica de todos se esticarem para gastarem mais do que podem. Gente sensata, gente séria.

Poderemos adjetivar do mesmo modo muita gente que vemos a vender cabritos sem ter as respetivas cabras?

Poderemos qualificar do mesmo modo o Governo e – pior ainda! – o Estado?

Ao que sabemos – vamos sabendo, também para isso serve a correspondência eletrónica e a INTERNET -, há organismos públicos que gastam… desabaladamente ou desalmadamente, irracionalmente! Gastam o que têm e o que não têm. Fazem em nós abundantes colheitas de sangue e despejam-no na areia, onde não fertiliza, de onde nada vamos colher. Vamos nós ficando mirrados, chupados das carochas e uns quantos desses fistores, desses malfeitores, gatunos, larápios… criminosos, pronto! Regalam-se numa vida ostensiva, tanto mais escandalosa e condenável quanto é certo que contrasta repugnantemente com a miséria em que vive uma tão grossa fatia do nosso Povo. Nem discretos sabem ser, os peçonhentos animais! Mas, pensando pela cabeça deles: que gozo daria ter essas riquezas todas, gozar todos esses exageros, se não se pudesse afrontar os pobres, os tristes remediados, os que… não dão um passo maior do que a perna? Como dizia ironicamente certo autor francês cujo nome não recordo (Jules Renard?): Não interessa ser feliz. É preciso que os outros não o sejam!

Novamente digo que não são só os regimes que estão em causa, não basta reformulá-los ou regenerá-los. É o modelo de Sociedade que está em causa, são as prioridades que é preciso redefinir, são os valores, os princípios que é preciso ou restaurar ou instaurar.

Há palavras que têm de deixar de ser apenas sons ou garatujas ou letras impressas. Ocorrem-me DIGNIDADE e SOLIDARIEDADE. São abstrações a que é preciso dar corpo.

Quem estiver escandalizado que transforme a sua revolta em ação!

                                                        Magalhães dos Santos
                                                          
(21 de abril de 2011 - Como se vê, o artigo já está um pouco "datado"... Mas, no essencial, está "vivo")

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